Tela grande, programação pequena: cinema em Teófilo Otoni resgata nossa cultura, mas peca na entrega

O cinema chegou a Teófilo Otoni em 1964. O saudoso Cine Palácio foi inaugurado em 18 de abril daquele ano com o filme “A Fonte dos Desejos” — lançado dez anos antes. Não importava. Era a grande sensação da época.
Localizado no centro da cidade, chegou a ser considerado o maior cinema do interior mineiro, com capacidade para 1.200 pessoas. O Palácio encerrou suas atividades em 2007. Suas maiores bilheteiras foram: “Titanic” (1998), com mais de 30 mil espectadores; “Stallone Cobra” (1986), com 20 mil; e “Tubarão” (1975), com mais de 15 mil, segundo o Instituto Histórico Geográfico do Mucuri. Foram oito anos de hiato entre o fim do Palácio e a chegada do Cine Teca, que completa dez anos em 2025.
Me admira, como consumidor nato de cinema — e crítico nas horas vagas –, a capacidade de desprestígio que o único cinema do Vale do Mucuri tem com seus clientes. Isso choca e aborrece. Nesta quinta-feira (13/03), o Brasil viu estrear em suas telas “Vitória”, o mais novo filme brasileiro com Fernanda Montenegro. Aqui passou despercebido.
Nosso vencedor do Oscar, “Ainda Estou Aqui” (2024), está em cartaz, mas somente após a indicação. Sim, o filme saiu de exibição e voltou após apelos da comunidade, que não teve a chance de assistir ao primeiro filme nacional a ganhar um Oscar porque o cinema o retirou de cartaz antes mesmo de Fernanda Torres, protagonista do longa, ser premiada no Globo de Ouro — um prêmio inédito, diga-se de passagem.
Pasmem: quando o filme de Walter Salles saiu de cartaz, ele era exibido na sessão das 16h. Que trabalhador conseguiria assisti-lo, a não ser aqueles que estavam de férias?
Mas a situação só piora. Um mesmo filme ficou em cartaz por mais de quatro meses: “Divertida Mente 2”, indicado ao Oscar, mas que levou uma sarrafada do letão “Flow” — que os teófilo-otonenses tiveram que assistir em sites piratas. Para quem não viu, vale a pena cada segundo.
Vejamos: em um mundo globalizado, tudo ocorre em segundos. Mas aqui, demora semanas. “Vitória” deve chegar nos próximos dias. Apenas “Duna 2”, “Gladiador 2”, “Ainda Estou Aqui”, “Robô Selvagem” e “Wicked” foram exibidos, em um universo que incluía “Nosferatu”, “A Substância”, “Anora”, “September 5”, “Nickel Boys”, “O Brutalista”, “Um Completo Desconhecido”, o aclamadíssimo “Conclave”, “Sing Sing” e “Emília Pérez” — aqui, não perdemos nada.
Pena. Espero, de verdade, que isso mude. Mas aproveito para parabenizar o apoio ao cinema local. O filme “Argentina — As Faces de Uma Mulher” foi exibido e aplaudido em nosso cinema.
Uma pena também que nosso povo ainda não consuma mais filmes locais e nacionais. Mas que bom que podemos sentir orgulho da nossa terra e do nosso país.